El Niño muito forte acende alerta: como se comportará o Açude Rosário em Lavras da Mangabeira?

Com quase 99% da capacidade armazenada em julho de 2026, o reservatório Francisco Leite de Macêdo enfrenta o desafio de preservar suas águas diante da previsão de temperaturas elevadas, maior evaporação e possíveis irregularidades nas chuvas de 2027

Por Paulo Sergio de Carvalho 12/10/2026 - 08:59 hs
Foto: Reprodução
El Niño muito forte acende alerta: como se comportará o  Açude Rosário em Lavras da Mangabeira?
El Niño muito forte acende alerta: como se comportará o Açude Rosário em Lavras da Mangabeira?

LAVRAS DA MANGABEIRA (CE) — O Açude Francisco Leite de Macêdo, conhecido popularmente como Rosário, poderá enfrentar um período de maior pressão sobre suas reservas hídricas em razão dos possíveis efeitos do El Niño muito forte previsto para o fim de 2026 e o início de 2027. A combinação de temperaturas elevadas, redução da umidade do ar e eventuais chuvas abaixo da média histórica coloca em evidência a importância do monitoramento e da preservação desse patrimônio hídrico.

O alerta merece atenção especial porque o Rosário apresentava uma situação bastante favorável no início de julho de 2026, quando, segundo os dados oficiais do Portal Hidrológico do Ceará, o reservatório acumulava 46,65 hectômetros cúbicos (hm³), equivalentes a 98,79% de sua capacidade.


Naquele mesmo período, os reservatórios monitorados no Ceará registravam, em conjunto, aproximadamente 52,93% da capacidade total, correspondentes a 9,624 bilhões de metros cúbicos de água. Os números demonstram a condição privilegiada do Rosário naquele momento, mas também levantam uma questão fundamental: por quanto tempo esse volume poderá ser preservado diante de condições climáticas mais adversas?

EL NIÑO PODE AGRAVAR O CALOR E A IRREGULARIDADE DAS CHUVAS

O cenário climático exige atenção. Em setembro de 2026, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) alertou para a possibilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte, com 93% de probabilidade segundo projeção divulgada pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).


De acordo com informações publicadas pelo Diário do Nordeste, o fenômeno poderá provocar maior irregularidade das precipitações no Ceará, com períodos secos durante a quadra chuvosa de 2027 e temperaturas mais elevadas. Os especialistas ressaltam, porém, que os impactos também dependem de outros fatores climáticos, especialmente das condições do Oceano Atlântico Tropical.        

Em outra avaliação publicada em abril de 2026, a Funceme apontou a possibilidade de temperaturas entre 1,5 °C e 2 °C acima da média climatológica durante o período de julho a setembro. Esse aquecimento pode aumentar a demanda evaporativa da atmosfera e intensificar a perda de água de solos, plantas e superfícies expostas.

QUANTO DE ÁGUA O ROSÁRIO PODERÁ PERDER?

Essa é uma das principais preocupações para os próximos meses. Em reservatórios do semiárido, a evaporação ocorre naturalmente e pode se intensificar quando há temperaturas elevadas, baixa umidade relativa do ar e ventos favoráveis à transferência de vapor para a atmosfera.

A possível perda adicional de 10% por evaporação, mencionada como estimativa para o cenário em análise, precisa ser interpretada com cautela: sem uma avaliação técnica específica do reservatório, não é possível afirmar que essa será a perda efetiva do Rosário.

O volume evaporado depende de fatores como área da superfície da água, profundidade, temperatura, ventos, umidade do ar e duração do período seco. Além disso, as retiradas para abastecimento e outros usos, a infiltração e eventuais entradas de água também influenciam a evolução do volume armazenado.

Portanto, mesmo partindo de uma situação próxima da capacidade máxima, o Rosário não está imune aos efeitos de uma estiagem prolongada.

MATA CILIAR: UMA ALIADA NA PROTEÇÃO DO RESERVATÓRIO


Se o clima representa um desafio, a conservação ambiental constitui uma das ferramentas mais importantes para reduzir a vulnerabilidade do entorno do açude.

A vegetação ripária, conhecida como mata ciliar, é formada pelas plantas que crescem nas margens de rios, lagos, açudes e outros corpos hídricos. Quando preservada, ela contribui para proteger o solo, reduzir a erosão, reter sedimentos e favorecer a conservação dos ecossistemas aquáticos.

No entorno do Rosário, a presença de vegetação próxima às margens merece atenção e acompanhamento. A cobertura vegetal pode proporcionar sombra localizada, amenizar o microclima e proteger o solo, embora não seja capaz de impedir, por si só, a evaporação de toda a superfície do reservatório.

Preservar essa vegetação significa também evitar desmatamentos, queimadas, ocupações irregulares e atividades que favoreçam o assoreamento. O cuidado com as margens deve ser acompanhado de ações de fiscalização, recuperação de áreas degradadas e educação ambiental.

O QUE PODE SER FEITO PARA PROTEGER O ROSÁRIO?


Diante das incertezas climáticas, algumas medidas são fundamentais:

  • Monitoramento permanente: acompanhar o volume armazenado, o nível da água e as variações semanais e mensais.

  • Uso racional da água: estimular o consumo consciente e reduzir desperdícios nos diferentes setores.

  • Proteção da mata ciliar: preservar a vegetação existente e recuperar trechos degradados.

  • Fiscalização ambiental: prevenir queimadas, desmatamento, erosão e lançamento de resíduos no entorno.

  • Planejamento hídrico: avaliar cenários de redução das chuvas e estabelecer estratégias para enfrentar períodos prolongados de estiagem.

O acompanhamento dos dados oficiais da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (COGERH) será essencial para avaliar como o reservatório responderá às condições climáticas dos próximos meses.

UM RESERVATÓRIO CHEIO NÃO SIGNIFICA RISCO ZERO

O volume registrado em julho de 2026 representava uma condição favorável para o Rosário. Entretanto, a manutenção dessa situação dependerá da relação entre as chuvas que efetivamente chegarem à bacia hidrográfica, a evaporação, as retiradas de água e as demais perdas naturais.

O El Niño muito forte é motivo para vigilância, mas não permite afirmar antecipadamente quanto o açude perderá ou qual será seu nível em fevereiro ou março de 2027. A intensidade dos efeitos dependerá da evolução do fenômeno e do comportamento das condições atmosféricas e oceânicas sobre o Nordeste brasileiro.